Home / Grandes Seleções / West Ham permanece no leste de Londres, mas sem a essência do Upton Park, os Irons se perdem no gigante de Stratford.

West Ham permanece no leste de Londres, mas sem a essência do Upton Park, os Irons se perdem no gigante de Stratford.

 

 

west_ham_against_millwall_-_it_kicks_off_at_the_boleyn_ground

Pela Championship, segunda divisão do campeonato inglês, West Ham e Millwall se encontraram pela última vez em 2012. Foi o último clássico no Upton Park (imagem), 108 anos depois dos rivais inaugurarem o estádio. A rivalidade do Leste de Londres é marcada por mortes, sangue, violência extrema e o motivo está em uma greve desrespeitada entre os operários das fábricas da toca de Millwall e do Upton Park, representantes dos times do Millwall e do West Ham. O rio Tâmisa dividia as fábricas e hoje divide os clubes e os hooligans. Fotos: Agência Reuters e Getty Images.

 

(Por Thiago Barros)

Iron Maiden! Steve Harris, baixista, líder e principal compositor da banda britânica citada é torcedor fanático do West Ham. Por isso, ele inventou o bordão “Up the irons” em alusão ao “Up the Hammers”. Os Hammers, apelido oficial do West Ham, virou “Irons” também. Tudo isso no Upton Park, um bairro que acolheu um dos times mais tradicionais de Londres. Começou em 1904, no Boleyn Ground, nome oficial do estádio, a rivalidade entre West Ham e Millwall. Naquele dia, 3-0 para os Hammers. Se você se lembrou do famoso filme “Hooligans”, meus parabéns. O filme trata desse clássico!

West Ham e Millwall, da mesma região, nasceram em torno de bairros de indústrias siderúrgicas divididas pelo Rio Tâmisa. Desde 1899, pelos conflitos entre os operários, “East London Derby” ou o “Clássico do Leste de Londres” é o confronto mais violento da Grã-Bretanha e para muitos o mais perigoso do mundo. A batalha passou das indústrias para os hooligans e a região começou a ser dominada por povos de diverssas etnias, sobretudo indianos. Se você vai ao Upton Park, saiba que a primeira coisa que vão te perguntar é se você prefere os Hammers (West Ham) ou os Lions (Millwall). Ali o West Ham se consolidou como time importante da Premier League, nivelou-se para incomodar Tottenham, Arsenal e Chelsea, os principais clubes de Londres. Vamos abrir um parêntese nas linhas abaixo e encerramos com os Hammers (ou Irons).

Todos sabem que a Revolução Industrial ocorreu na Inglaterra e teve diversas fases. A era da Rainha Vitória foi o auge da Inglaterra como potência mundial, mas ao mesmo tempo em que as indústrias ocupavam Londres por todos os lados, a poluição também se fazia presente e deixava a cidade cinzenta, algo que se reflete nos dias atuais com o aquecimento global proveniente justamente desse período sombrio de uma Londres misteriosa. Operários aos montes, exploração exacerbada e muita tensão entre patrões e proletariado formam um cenário  para o surgimento de ideias anarquistas e socialistas que culminam em formações sindicais e greves. Os trabalhadores lutam pelos seus direitos, por salários e condições melhores de vida e o fim da exploração das indústrias. Perceba que o cenário é propício para a disseminação das ideias comunistas que começam a tomar conta da Europa a partir desse período, inclusive com a Revolução Russa de 1917 e todas as atrocidades que seriam cometidas por Stalin e seu autoritarismo. Como resposta, surge a extrema direita de Hitler, o partido nazista, o fascismo de Mussolini na Itália e a segunda guerra mundial tem seu palco armado. Tudo errado! Mas fui longe nessa história para dizer que a guerra do proletariado por direitos trabalhistas tornou-se fio condutor para figuras como Karl Marx aparecerem e inspirarem a luta operária, representada pela foice e pelo martelo (símbolo do comunismo).

Voltando aos clubes, West Ham e Millwall estavam nesse contexto em 1926, ano em que marca definitivamente a guerra entre os operários que jogavam pelos dois clubes graças a um desentendimento sobre uma greve. Perceba! Em 1926 já aconteceu a Revolução Russa, as ideias de Marx são espalhadas pelo mundo, inclusive no Brasil com Olga Benário e Luís Carlos Prestes. Getúlio Vargas se inspiraria no partida nazista para criar a AIB (Ação Integralista Brasileira) contra a intentona comunista e Olga, judia e comunista, acabaria deportada e morta em um campo de concentração na Alemanha Nazista. Getúlio, em 1937, daria um golpe de estado justificando a ameaça comunista que “assombrava” o Brasil, justamente nas portas da segunda guerra mundial e na efervescência de ideologias de direita e esquerda espalhando-se por todos os cantos do mundo através das propagandas de figuras sombrias como Hitler e Stalin. Mais tarde, Che Guevara seria expoente do socialismo na América durante a Revolução Cubana (assuntos do esporte cubano que eu tratarei algum dia). Enfim, nesse contexto, extrema direita contra extrema esquerda, nazismo contra comunismo, surge a rivalidade desses clubes. Upton Park vira palco de guerra entre operários e, mais tarde, o legado político e ideológico seria carregado pelos violentos hooligans para espalhar terror em Londres (e suas filosofias extremistas espalharam-se pelo mundo inteiro com o conceito de violência extrema no futebol, que também foi seguido no Brasil com as torcidas organizadas até os dias atuais). Não é por acaso que esses grupos, como os do Cruzeiro e do Atlético, carregavam  a bandeira de Che Guevara e de René Barrientos (presidente boliviano que mandou executar Che Guevara). Uns homangeiam um personagem de extrema esquerda (Che) e outros homenageiam a extrema direita (Barrientos). Há uma batalha ideológica atrás do hooliganismo! isso é muito perigoso! Esse parêntese foi importante para entendermos o contexto geral que causa um clima hostil no Upton Park entre Hammers e Lions. Mas vamos voltar aos dias atuais e falar da mudança de casa do West Ham!

 Ao lembrar de Londres 2012, uma Olimpíada espetacular, o Estádio Olímpico logo vem a memória como uma obra arquitetônia das mais belas da terra da Rainha. Quase o espetacular complexo virou um “elefante branco”. O tradicional West Ham entrou em uma briga com o Tottenham e conseguiu o arrendamento do estádio. O problema é que os “Hammers” acostumaram-se com o acanhado Upton Park e por lá venciam jogos inacreditáveis. Foram mais de 1.400 partidas no Upton Park desde 1904! O jogo final foi uma surpreendente vitória contra o Manchester United por 3-2 em Maio. Resultado que tirou o tradicional time de Manchester da Champions League nesta temporada (2016-2017). O encanto acabou naquele jogo! Foi muito simbólico! Fim de linha! O Upton Park será demolido e o time do bairro muda de casa, vai para Stratford ocupar o Estádio Olímpico de Londres. A essência desaparece, o Upton Park perde sua alma e o West Ham muda sua filosofia como clube de futebol.

 O que tem em comum o estádio Olímpico e o Upton Park? Tirando os poucos quilômetros de distância, nada mais. Ficam no Leste de Londres, pelo menos o West Ham não ficará tão longe do Upton Park, um estádio que era caldeirão e que fazia dos Hammers um time muito temido dentro de casa. Agora, em um gigante de concreto, a torcida não faz pressão. Pode ter Payet (craque francês) e ele pode até fazer jogadas espetaculares como fez hoje na Premier League. Mesmo assim, o Watford foi ao Estádio Olímpico, levou 2-0 dos Hammers e sem o “caldeirão” do Upton Park, teve tranqulidade para virar o placar para 4-2. No dia 04.08.2016, começou um novo capítulo da história do West Ham e não começou nada bem. Derrota na Premier League e outra derrota também para o inexpressivo Astra Giurgiu, da Romênia, na UEFA Europa League colocam a decisão do West Ham de sair de seu bairro como um perigo real para a identidade de um clube que sempre foi muito preso a suas raízes.

 Na história, Upton Park tem seus perigos,  mas tem seu charme de estádio de futebol genuíno e fervoroso. Segundo relatos, em dias de futebol, Upton Park era visita obrigatória para um fã de esportes, pois ali se encontrava o verdadeiro espírito do torcedor inglês em uma megalópole como Londres. Quanto ao Millwall, nunca foi grande, mas sempre incomodou, venceu mais do que perdeu para o West Ham em confrontos diretos. Das indústrias do fim da era Vitoriana surgiram os dois clubes e, hoje em dia, em uma Londres moderna, o West Ham abandona sua verdadeira casa, sai da simplicidade carimbada em sua história e aponta para a atualização do conforto no futebol da Londres contemporânea: A Arena multifuncional. O tempo responderá se isso foi bom ou ruim para o time e, principalmente, para a apaixonada torcida dos Hammers. Por enquanto, fica a saudade do Upton Park em um dia que o West Ham consegue sofrer 4 gols do Watford dentro de casa (ou dentro da casa que escolheu a partir de agora, o gigantesco Estádio Olímpico).

 Em tempo, a Premier League está muito legal e hoje o clássico de Manchester teve todos os holofotes. O Manchester City, de Guardiola, venceu o United, de Mourinho, por 2-1 em pleno Old Trafford, o Teatro dos Sonhos. Ibra contou com falha bizarra de Bravo para deixar o seu e irritar seu desafeto Guardiola. Kevin de Bruyne, na minha opinião, já se torna mais efetivo do que Hazard no futebol belga. Talvez essa temporada pelo City confirme isso! O Tottenham, do sul-coreano Son Heung-Min, autor de dois gols, fez 4 no Stoke fora de casa. O Liverpool jogou  no Anfield e, diante da sua torcida, se inspirou na música sempre entonada antes dos jogos “You’ll Never Walk Alone” ou “Você nunca caminhará sozinho” para golear o Leicester, atual campeão inglês, por 4-1.

 

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.Campos obrigatórios são marcados *

*