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O drama de Cruzeiro, Internacional e São Paulo reflete a falência do futebol brasileiro!

(por Thiago Barros)

Não é segredo para nenhum de vocês o meu desânimo com o futebol nacional. No entanto, eu preciso reconhecer que o campeonato é sempre cheio de grandes emoções e marcado pela imprevisibilidade, o que nos seduz a acompanhá-lo, mesmo que seja em sua reta final. Claro que é preciso acompanhar com um olhar crítico e entender que Internacional, Cruzeiro e São Paulo brigando contra o rebaixamento escancara o tanto que a desorganização e o baixo nível técnico colocam os nossos grandes clubes em uma montanha russa eterna. Ninguém consegue ser grande no Brasil! Por aqui nunca existirá um Bayern München! Ou um Ajax, que mesmo em crise em termos continentais, no combalido campeonato holandês consegue ficar sempre na briga pelo título com o PSV e o Feyenoord. Vamos refletir sobre isso!

rogerio

Vai lá de coração! O São Paulo, um dos maiores clubes da América, cansou de levantar taças importantes na década passada. Rogério Ceni, expoente da geração de ouro, era um comandante nato. O Tricolor, três vezes campeão do Mundo e da Libertadores, 6 vezes campeão brasileiro (foto – título do Brasileirão 2006) chega em 2016 amargando um período de seca. O São Paulo só venceu a Sul-Americana nessa década e parece ter perdido a sua identidade genuína de clube campeão. A hipótese do rebaixamento, após uma traumática eliminação para o Juventude na Copa do Brasil, deixa de ser teoria a partir desta segunda-feira.

Eu vou precisar fazer uma delimitação no tempo, eu poderia argumentar várias coisas, pegar de 10 anos para cá ou só o novo milênio. Mas ficarei com a simbologia da era dos pontos corridos que começou com um Cruzeiro feroz em 2003. De Luxemburgo no comando fora das relvas e Alex dentro delas, o Cruzeiro era um rolo compressor que não temia Morumbi (SPFC 2-4 Cruzeiro), Arena da Baixada (Atlético-PR 1-4 Cruzeiro) ou Fonte Nova (Bahia 0-7 Cruzeiro). Foi campeão com sobras! O Santos, fenomenal na época, sucumbiu duas vezes diante daquele time fantástico do Cruzeiro, levando 5-0 no agregado (2-0 na Vila e 3-0 no Mineirão). Relembrei 2003 para falar que 13 anos depois o Cruzeiro, tri-campeão brasileiro da era dos pontos corridos, está em situação delicadíssima. Até 2010, Cruzeiro, Internacional e São Paulo eram considerados os clubes mais fantásticos e organizados do Brasil. Inter e São Paulo foram campeões da Libertadores (o Internacional duas vezes e o São Paulo uma) e do Mundo. Fizeram a final da Libertadores 2006! O São Paulo sagrou-se tri-campeão brasileiro entre 2006 e 2008 e o Inter pegou uma fama peculiar: ganhava tudo e de tudo. Então como explicar essa queda vertiginosa desses três gigantes ao ponto de estarem ameaçados pelo rebaixamento no Brasileirão 2016? Como explicar que um deles deve cair e que até dois podem ir para a segunda divisão se continuarem no mesmo ritmo? Não sei!

Para início de conversa, eu me arrisco em águas não muito cristalinas para mim. Quero dizer que não estou tão por dentro do futebol brasileiro atualmente e, por isso, ficarei nos valores históricos e representativos do campeonato e dessas três potências do futebol. O que eu vejo no campeonato brasileiro é uma gangorra que hora coloca Palmeiras, Flamengo e Atlético como times de segunda divisão (desses só o Flamengo não caiu) e Cruzeiro, Internacional e São Paulo como representações de grandeza e organização. Do nada, tudo muda, Palmeiras, Flamengo e Atlético tornam-se potências, enquanto que Cruzeiro, Internacional e São Paulo se apequenam. Se há uma explicação científica para isso, que os cientistas me falem. No meu olhar subjetivo, eu vejo no Brasil cerca de 10 forças para lutar pelo título  e mais uns três que podem correr por fora. Sei que é desagradável bater na tecla de que o campeonato é fraco e que hoje perde para os campeonatos da Argentina, do México e dos EUA na América e se bobear já é alcançado pelo colombiano ou chileno. A fraqueza está presente em tudo no falido futebol brasileiro, o que explica os motivos de times grandes não conseguirem ficar no topo de forma linear como ocorre na Europa. O problema de mentalidades, aliada a cultura fajuta de deixar tudo para última hora, de trocar de técnico a cada 10 jogos, jogam no ralo qualquer argumento simplório de que o futebol brasileiro voltará a respirar em breve. Não voltará!

Mesmo Palmeiras e Flamengo, os dois primeiros do campeonato, convivem com fantasmas recentes de muita desorganização e pânico. O Palmeiras caiu em 2012, voltou e quase caiu pela terceira vez nesse século. Fez de tudo para cair colocando técnicos e mais técnicos, inclusive estrangeiros, que contratavam jogadores de seus países que só eles conheciam e, de repente, eram demitidos e esses jogadores ficavam para os seus sucessores. Que confusão! Um Palmeiras desorganizado e desacreditado não virou potência de uma hora para outra. É a mesma coisa! Só encaixou um período legal, como o Cruzeiro entre 2013 e 2014. Um Cruzeiro que quase caiu em 2011, virou força em meados da década e já volta a ser assombrado novamente pelo rebaixamento.

Eu não tenho ferramentas para fazer um mergulho profundo na estruturação desses clubes, mas de forma rasa eu posso afirmar que a falta de planejamento torna o futebol brasileiro visivelmente abalado por uma interminável crise de identidade. Isso é legal para muitos! O imprevisível choca e emociona, faz o campeonato ficar legal e intrigante, mas ao mesmo tempo corrói qualquer argumento a favor dos nossos falidos clubes. Como explicar essa queda vertiginosa? Reafirmo que não sei! O que sei é que não existe estrutura e planejamento, a construção não é inabalável e todos têm chances de ganhar ou cair de forma quase idêntica.

O imediatismo e a cultura do jeitinho brasileiro de deixar tudo para última hora, inclusive formar um time para a temporada, deixam todos os clubes (grandes e pequenos) submersos na própria lama em que se jogam como se fosse o único caminho a ser seguido. Eu achei que Internacional, São Paulo e Cruzeiro surgiriam como forças em meados dos anos 2000 para colocar um ponto final nessa visão negativa do futebol brasileiro. Esses três clubes se estruturaram de tal forma que passaram, de fato, a serem reconhecidos como os mais “gigantes” entre os “gigantes” do Brasil nesses últimos anos. Em determinado período, parecia que o São Paulo se tornaria um Bayern do Brasileirão (venceu três campeonatos seguidos) e o Internacional um Barcelona em termos continentais (vencia tudo). Sem falar no Cruzeiro que ficava na moita esperando pelo momento para chegar ao topo. Mas o efeito dominó desconstrói tudo e os três mais respeitados observam Corinthians, Fluminense e Galo tomarem seus lugares, enquanto que Palmeiras e Flamengo entram nesse jogo de cena para buscar um protagonismo perdido há décadas.

Tudo vai se embolando que até mesmo o maior especialista em futebol brasileiro fica perdido. Não há gigante entre os gigantes. Há grandes que ficam pequenos e que ficam gigantes por um tempo, mas o gráfico de forma geral sempre os deixará no mesmo nível de outros 10 ou 11. Intrigante? Não pense que é fácil falar disso. Atlético-PR, por exemplo, ganha o Brasileirão, entra para o clube dos estruturados, mas no ano seguinte vai para a luta contra o rebaixamento, cai e depois volta. Corinthians, regular em alguns aspectos, é sempre réu no futebol brasileiro (já tem isso carimbado pelos demais). Mas o Corinthians não se importa de ser réu, ele vai lá , faz seu dever de casa que é vencer campeonatos difíceis e no fim todos reclamam e o corintiano comemora. Mas não escapa da gangorra! Caiu em 2007! O Santos idem! O São Paulo, que eu nunca vi brigar contra o rebaixamento, pode pintar nessa inédita luta na reta final e o Internacional, que dificilmente passa por isso, já cravou essa marca na temporada 2016. O Cruzeiro, só nessa década, venceu 2 Brasileiros e se vê envolvido em duas lutas contra o rebaixamento, coisa que era comum para seu rival, o Atlético, há 10 anos e hoje não é mais. Fico perdido! Todos ficamos!

inter

O Internacional de Fernandão (foto) venceu o Barcelona e sagrou-se campeão do mundo em 2006. Venceu a Libertadores da América em 2006 e 2010 e colecionou títulos internacionais (como seu nome sugere). No campeonato gaúcho, é hexa-campeão (vence todos desde 2011). Mas a obsessão por um título brasileiro, para um time que ficou marcado como um dos mais fortes da história, tri-campeão invicto do Brasileirão em 1979, pode ter colocado o Internacional na berlinda diante da sua apaixonada torcida e da crônica esportiva. Por vencer tudo, o Inter virou referência (fato), mas também virou favorito de absolutamente todos os campeonatos brasileiros. Justíssimo! Tem elenco para ser campeão mesmo, inclusive nessa temporada fraca de 2016. Mas a pressão, assim como tem o Galo em Minas, tira o foco de um Colorado que venceu de tudo nos últimos anos para relembrar o Inter do último Brasileirão antes dos pontos corridos. Em 2002, o Internacional só se salvou do rebaixamento na última rodada ao vencer o forte Paysandu em Belém. Mahicon Librelato, autor do gol que salvou o Inter, morreria em um acidente aos 21 anos de idade poucos dias depois em Florianópolis. Ele era considerado uma das grandes promessas do futebol brasileiro! Há quem diga que o Paysandu se vendeu para o Internacional se safar daquele rebaixamento. Curiosamente, o episódio todo (da salvação e da morte do garoto prodígio) fez o Inter acordar e se estruturar para viver tempos de glória com Fernandão, que levantaria a taça de campeão do mundo em 2006. Hoje, 14 anos depois do emblemático episódio do jogo contra o Paysandu, o fantasma do rebaixamento recoloca o Inter na situação que seu rival Grêmio conhece bem: segunda divisão a caminho.

Depois desse monólogo sobre o subjetivo mundo mágico do campeonato brasileiro, eu quero encerrar com uma reflexão: é preciso se organizar para trabalhos a longo prazo. Na década passada, esses três clubes supracitados fizeram isso com propriedade e tornaram-se referências. Hoje as referências mudaram! O emblemático dessa montanha russa é ver o Flamengo e o Palmeiras brigando para não cair em uma temporada e pelo título na outra. O Fluminense chegou a cair em 2013 depois de títulos consecutivos em 2010 e 2012, mas foi salvo por uma falha de organização da Portuguesa (que acabou castigada com o rebaixamento pelo STJD). O Fluminense se safou e continua em uma gangorra. Essa roda gigante é bacana para quem vê de fora, mas não para quem a vive de fato. Hora por cima, hora por baixo, todos os grandes clubes do Brasil vão sempre intercalar temporadas péssimas com ótimas? Será que o Vasco, vice-campeão brasileiro em 2011, campeão da Copa do Brasil em 2012, restabelecido após um traumático rebaixamento em 2008, é mesmo um clube para ficar caindo e voltando como se fosse do tamanho de um Goiás ou Ceará?

O futebol brasileiro recebe avisos desde o 7-1 da Alemanha, do 8-0 do Barcelona para cima do Santos (tb tem o 4-0 do mesmo Barça contra o Santos na final do Mundial), das derrotas vexatórias de Internacional e Atlético para times africanos no Mundial de Clubes e, principalmente, por espelhar uma crise que vem para apagar a chama que ainda existe de esperança por dias melhores: o Brasil nem representante em final de Libertadores e Sul-Americana consegue ter mais. O Galo de 2013 foi o último campeão da Libertadores e a Ponte a última finalista de sul-americana no mesmo ano.

A grandeza dos clubes continuará eternamente. Podem cair para a terceira ou quarta divisão! Internacional, Vasco, Corinthians, Grêmio ou Cruzeiro. Todos passarão pela mesma situação: hora por cima, hora por baixo. Explicação óbvia: o futebol brasileiro acabou e os times estão falidos estruturalmente, moralmente e financeiramente. Não se organizam nem para o trivial que é fazer uma temporada decente e sem fazer a torcida sofrer com uma possível queda. Continuarão pagando pelos seus pecados ao ponto de chegarem a última rodada precisando vencer um duelo contra um rival (6-1 do Cruzeiro sobre o Atlético em 2011 é um exemplo disso) ou, pior ainda, dependendo que um rival de cidade vença o adversário direto na briga contra o rebaixamento, ouvindo de todos os seus torcedores para entregarem o jogo para prejudicar o amado oponente (pelo avesso). Grafite, ex-jogador do São Paulo, é condenado em praça pública pelos tricolores por ter feito gols no Juventus da Mooca e não ter rebaixado o Corinthians no campeonato paulista de 2004. Ele fez o ético e correto: jogou futebol para vencer. Mas a paixão cega do torcedor não entende isso e já começam a pintar as campanhas para que o Grêmio entregue o jogo para o Cruzeiro no próximo sábado para prejudicar o Internacional e assim será até a última rodada (o Atlético recebe o São Paulo na penúltima rodada e pode prejudicar o Cruzeiro caso tenha saído da briga pelo título; o Corinthians recebe o Internacional e pode prejudicar o São Paulo e por aí vai). Ficou tudo pelo avesso!

Galera, fontes das fotos: Gazeta Esportiva e site oficial da CBF.

Sobre a suspeita de que o Paysandu se vendeu para salvar o Internacional em 2002, você encontra em diversas matérias datadas de 2012, quando o escândalo ressurgiu. Diga-se de passagem que esse tipo de suspeita é comum no futebol brasileiro, inclusive no emblemático Cruzeiro 6-1 Atlético que salvou a Celeste de um rebaixamento quase certo em 2011 e empurrou o Atlético-PR para a segunda divisão. Segue um link do caso Internacional em 2002:

http://globoesporte.globo.com/pa/noticia/2012/11/ex-presidente-do-papao-suspeito-que-quatro-se-venderam-em-2002.html

 

 

 

 

 

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