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A Olimpíada das Olimpíadas! A desconstrução do complexo de vira-lata!

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Aplausos! Aplausos! Esses são os medalhistas brasileiros na Rio 2016!

(Por Thiago Barros)

Para Nelson Rodrigues, que merecia ver uma Olimpíada em sua cidade maravilhosa, o complexo de vira-lata é algo que vem com o brasileiro desde a derrota na final da Copa do Mundo de 1950. Um complexo de inferioridade diante do mundo, resumidamente. Não nego! Quando o Brasil decidiu trazer a Copa do Mundo e a Olimpíada em um intervalo de 2 anos, eu duvidei que isso daria certo. Com os protestos durante a Copa das Confederações 2013, cheguei a imaginar que tragédias poderiam acontecer. Mas a Copa foi impecável! As desconfianças, sobrecarregadas por um contexto político-social hostil e de crise econômica, atenuaram o medo do mundo da realização de uma Olimpíada, ao mesmo tempo em que atentados terroristas assombravam vários países europeus e tornavam-se ameaça para o Brasil. Eu precisei ver para crer! O Rio se responsabilizou, sabia exatamente o tamanho daquilo que propusera a fazer e executou de fato. Foi quase impecável, erros pontuais aqui e ali vão acontecer em Londres, Pequim ou Atlanta. O Rio não deveu nada para essas cidades de primeiro mundo.

Muito bem! Eu sei que muitos podem não ter lido meus textos anteriores, mas eu sou dúbio com a Olimpíada no Rio. Explico! Acho que a Olimpíada é um evento máximo do esporte mundial e que eu gostaria de ver de perto (como fiz). A minha maior oportunidade era agora e esse sonho eu realizei. Por outro lado, nunca concordei ou concordarei com o Rio ser o salão de festas (e de gastos desproporcionais). Os tais “legados” jamais pagarão o preço e isso é fato. Não concordo! Eu disse isso desde o início, mas o que é a minha voz? Ou o que são as vozes dos brasileiros em frente aos desmandos dos governantes? Então o jeito foi aproveitar ao máximo, deixando o sentimento de culpa (que existe) de lado.

De experiência, tive a oportunidade de ver os jogos de futebol masculino no Mineirão. O torneio masculino de futebol, sub-23, nem chega a ser isso de fato. Nem os jogadores sub-23 podem ser convocados, então aparecem por aqui seleções remendadas para representar algo que passa longe da realidade do que essas seleções poderiam representar em um torneio de alto nível (sim, sub-23 de alto nível existe). Jogos sem graça! O curioso foi ver a Alemanha fazer 10-0 em Fiji (até o América-MG faria). Mas não deixou de ser simbólico, a Alemanha já possui as duas maiores goleadas do novo Mineirão, 7-1 no Brasil e 10-0 em Fiji. O que me surpreendeu foi o público de Coréia do Sul e Honduras nas quartas de final, com o Mineirão lotado e se divertindo. Por outro lado, na disputa do bronze, eu esperava um público razoável para Honduras e Nigéria e o que se viu foi um Mineirão abandonado. Sei que não se trata de um jogo interessante em nível técnico e nem que o torneio chama a atenção, mas era disputa de bronze, talvez valesse a oportunidade de assistir de perto. Mas aí caímos nos preços dos ingressos, o que vale outro texto com muitas reflexões. Os eventos, em geral, foram um fracasso de público em todas as sedes, inclusive no Rio.

No Rio, eu tive a oportunidade de ver uma semifinal do handebol feminino, disputa de bronze do field hockey (hóquei sobre a grama), final do futebol feminino, entre outros. Sensacional! No Rio, deu para sentir o verdadeiro clima olímpico. Existia uma cidade dentro da cidade, trânsito facilitado ao máximo, informações para todos os lados, educação, hospitalidade, amizade, carinho, um verdadeiro show de simpatia de cariocas e povos do mundo inteiro, brasileiros e estrangeiros. Não vi falhas e então não vou buscá-las. Em Deodoro, por exemplo, uma Vila Militar, me senti seguro ao extremo e jamais intimidado pelas centenas de policiais. Até tanque de guerra tinha! Não foi diferente na Cidade Olímpica, no Maracanã, na Arena do Vôlei de Praia em Copacabana ou nas zonas de convergência entre torcidas. Tudo muito bem estruturado, profissionais capacitados (falando inglês) para direcionar os turistas para o rumo certo, seja para hotéis, bares ou outros pólos esportivos. Muito fácil! Muito tranquilo! Bom, a organização aproximou-se da nota 10 (eu acho que nunca vou dar 10 para nada). Mas ficou bem próxima disso!

Aos esportes, vamos lá!

A participação brasileira foi histórica, 7 ouros, 6 pratas e 6 bronzes superaram todas as outras edições dos Jogos. O “quero mais” existirá sempre, afinal temos atletas capacitados em muitas categorias. As meninas do futebol, com pouco apoio da “entidade”, mereciam uma medalha, fosse de bronze. O problema é que essa medalha seria estampada com orgulho na CBF, eles querem os louros da vitória. Mas elas mereciam! O vôlei feminino é potência, o ouro era praticamente certo e a derrota não me decepciona. Frustra, mas não me decepciona. O motivo: elas lutaram até o fim. Se não fosse ouro, que fosse bronze. Cair nas quartas de final foi cruel para essas meninas. Falando em crueldade, creio que dois esportistas tão condecorados como Fabiana Murer (salto com vara) e Robert Scheidt (vela) também não podiam passar em branco. Nem o handebol feminino, campeão do mundo em 2013 e que em uma péssima manhã de sábado, parou em uma Holanda, atual vice-campeã do mundo, avassaladora e com cara de carrossel. Falando em Holanda, essas meninas do handebol holandês, que eu vi de perto na Arena da Juventude, estão de parabéns. São ferozes, jogam só na vertical e a velocidade confunde todo mundo. Elas vão para atropelar, certamente aparecerão muito no caminho das brasileiras nas grandes competições, pois provaram (Holanda e Brasil) que o handebol é coisa de mulher com M maiúsculo. Enfim! A Flavinha não perdeu o bronze, com 16 anos ela conquistou o quinto lugar na ginástica, ao ponto da sensacional Simone Biles admitir que seu bronze foi injusto, talvez Flavinha fosse pódio. Mas quer pódio melhor do que a vitrine que ela ganhou e a oportunidade de treinar nos EUA?

Quer pódio? Então vamos de pódio! Thiago Braz já tinha seu pódio armado. Seu ouro, estampado em sua sensatez e em seu sorriso, em sua coragem e em sua determinação, chamou a atenção de grandes do atletismo brasileiro como Maurren Maggi e Fabiana Murer, além de técnicos de alto gabarito do atletismo mundial. Quem viu a prova de ouro do Thiago, pôde observar que ele não se abatia a cada investida do adversário francês, ele já havia superado recordes pessoais, continentais e mandava subir o sarrafo. Foi aos 6,03 metros, um gigante, para derrotar o melhor do mundo e conseguir o ouro mais inesperado para o Brasil na Rio 2016. Quem falava em Thiago? Ah, falava-se no Thiago da natação, maior medalhista dos Jogos Pan-Americanos, prata em Londres, adversário sempre duro para feras como Phelps e Lochte (esses merecem um texto também por motivos distintos, talvez até dois textos pois a genialidade de um não deve se misturar com a insensatez de outro).

Alguém conhecia o Robson Conceição do boxe? Poucos! Aqui, na revista Styllus, se você buscar meus favoritos ao ouro, Robson, Isaquias Queiroz, Alison e Bruno, Martine Grael e Kahena Kunze, Rafaela Silva, Diego Hypólito, Arthur Zanetti, entre outros, estavam listados de forma clara. Alguns decepcionaram! Por exemplo, eu acreditava na Yane Marques, bronze em Londres no pentatlo moderno, mas a própria já tinha deixado seu legado. Nossa porta-bandeira disse isso: “eu abri as portas para novos atletas no pentatlo”. Eu acreditei muito na natação e não entendo como um esporte apoiado por grandes empresas, com estruturas fantásticas, não conseguiu sequer uma mísera medalha. Quem conhece o Minas Tênis Clube, sabe do que eu estou falando, a Grã-Bretanha ficou encantada com a estrutura daquele lugar. Vamos para o Judô! Tudo bem! Veio 1 ouro e 2 bronzes, o que é representativo, mas está abaixo de Londres, sendo que o discurso é de que o judô bateria recordes na Rio 2016. Temos atletas de alto nível. A Mayra Aguiar foi bronze por acaso, acabou caindo diante de uma adversária complicada e, ainda assim, 20 minutos depois se recuperou do trauma de perder o ouro tão sonhado para lutar pelo bronze. Conseguiu! A Sarah Menezes, ouro em Londres, lutou tanto, saiu machucada, foi brava e nada tira seu brio. Ela segue sendo a primeira mulher que conquistou um ouro no judô para o Brasil em Londres. Exceto pelo Rafael Silva (Babby), os rapazes caíram muito de produção. O nosso judô masculino precisa de renovação. As meninas salvam, mas não podemos depender só delas. Rafaela Silva salva, eu já bati nessa tecla milhões de vezes, o ouro dela foi simbólico, emblemático, encantador, escancarou para o mundo o que é o Brasil de verdade. A Rafaela representou brasileiros de todos os tipos e o fez com propriedade. Eu comemorei muito!

Eu não posso me ater a cada atleta, infelizmente. Vou direcionar minha homenagem a todos os medalhistas em todas as categorias. A ginástica, por exemplo, trouxe a Hypólito o sentido do esporte e da vida, que ele quase deixou escapar. O Zanetti, considerado imbatível, encontrou um grego (tinha que ser do Olimpo mesmo) para conseguir notas mais altas que as suas. Não deu ouro, mas Zanetti é ouro em Londres e prata no Rio. Sensacional isso! O Isaquias Queiroz, que me chamou a atenção em Toronto 2015, estava na minha lista, você pode buscar e ler: “ele tem chances não é de uma medalha, ele tem chance de três e, vou exagerar mesmo, até três ouros são possíveis”, eu enfatizei. Foi uma participação espetacular do Time Brasil na Olimpíada 2016, fazendo menção ao título inédito do futebol contra a Alemanha no Maracanã (Neymar liderou o Brasil nessa campanha) e ao grande título do vôlei masculino, que chegou desacreditado, perdeu partidas bobas no início, ficou ameaçado de sequer passar da fase de grupos e ressurgiu vencendo as poderosas seleções da França, da Rússia e da Itália.

Antes de encerrar, eu quero agradecer, de coração, a um amigo especial chamado Nick. Em 2014, na Fan Fest, alguns esquentadinhos começaram a buscar confusão com esse rapaz, holandês, durante o jogo entre Brasil e Holanda que assistíamos nas Areias de Copacabana. Ele não fazia nada, só estava de Laranja. Eu já conhecia o Nick desde um jogo da Bélgica em Belo Horizonte e logo nos tornamos amigos, afinal gosto muito do futebol holandês e ele do futebol brasileiro. Enfim, nas praias, em Copacabana, ele foi abordado e eu o defendi. Eu apanharia feio! Fato! hahaha

Nossa sorte é que os seguranças apareceram e nada de mais grave aconteceu. A nossa amizade tornou-se muito maior do que falar de futebol ou esportes em geral (até de curling eu sou obrigado a falar sem entender nada). Enfim, generoso, como todos os holandeses que eu conheço (e não são poucos), ele me deu ingressos, desembarcaria no Rio e me chamou para acompanhar algumas competições dos Jogos. Eu achava que me limitaria aos jogos de futebol em BH. E foi sensacional! Agora estou convocado para ir para a Holanda. Enfim, o que eu quero dizer é que, no fim das contas, não existe complexo de vira-lata. O holandês, o espanhol, o francês ou o alemão (pelo menos os que eu conheço, sei que há exceções) não pensam assim. Eles admiram a nossa cultura, valorizam a força do nosso futebol, o clima, as cores e a simpatia dos brasileiros. Eles dizem: “não há no mundo lugar mais hospitaleiro que o Brasil”. Uma tcheca, na madrugada chuvosa de Copacabana, me disse na última quinta-feira após o ouro do Alison/Mamute e do Bruno: “Esse país é fantástico! Quero morar aqui!”

Eu quero enaltecer os cariocas por terem sido tão receptivos, mesmo em um momento de sangria desatada para o Brasil em questões econômicas, políticas e sociais. Não é fácil! Mas o sorriso estampado no rosto do brasileiro fez com que o polonês, o equatoriano, o dinamarquês, o chinês, o camaronês, o argentino, o russo, o mexicano (…) se sentisse em casa. Obrigado Brasil, sei que foi tudo errado, mas no fim deu tudo certo.

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Eu não vou deixar de homenagear a Holanda. De amigos solícitos, povo alegre e humilde, por quem tenho carinho e respeito, eu deixo o retrato de todos os medalhistas Laranjas na Rio 2016. Fiquem de olho em Dorian, esse com a bandeira mais ao centro, rei da Vela, classe RS: X. Ouro em Londres e no Brasil! Para Bimba, velejador brasileiro, é impossível alcançá-lo. Fique de olho também nos vários ciclistas e nadadores, mas sobretudo em Sanne Wevers, ouro na ginástica artística, ela superou Simone Biles.

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