“Por que uma pessoa que é figurinha fácil é chamada de ‘arroz de festa’? Acho que não é muito comum servirem arroz em festas, ou será que é comum e só eu não reparei?” (Marina Gadelha)

A expressão “arroz de festa”, como se sabe, quer dizer sobretudo “pessoa que é vista em todas as festas”. Acabou ampliada para designar quem se faz sempre presente, quem parece estar em todos os lugares ao mesmo tempo, e não apenas em ocasiões festivas, o que a transformou numa locução sinônima de “figurinha fácil”.

O papel do arroz nessa história, que intriga Marina, é mais curioso: a expressão nasceu do arroz-doce. Não encontrei o “arroz de festa” propriamente dito em nenhum dos livros de referência sobre expressões tradicionais brasileiras que tenho na estante, mas as pistas sobre sua origem são claras.

Com o mesmo sentido de “pessoa que aparece em tudo quanto é festa”, Antenor Nascentes registra uma locução antiga que vai caindo em desuso, “arroz-doce de função”. Luís da Câmara Cascudo traz o verbete “arroz-doce de pagode”, com exemplo colhido num livro de 1920 do escritor Valdomiro Silveira: “Foi arroz-doce de quanto pagode de truz se fez pelo sertão do Tietê”.

Nas palavras de Câmara Cascudo, isso vinha do fato de o arroz-doce ser “gulodice indispensável e preferida ao paladar português, fidalgo e plebeu, e brasileiro, desde o século XVI”. Ou seja, algo que não podia faltar em festa alguma – no que se assemelhava àquele convidado infalível.

Para completar, o Houaiss registra “aquele que não falta a festas” como sentido figurado do próprio arroz-doce. “Peru de festa” é uma variação também presente na maioria dos dicionários.

Como faz tempo que o arroz-doce, sobremesa tradicional portuguesa e brasileira, não é mais uma guloseima comum em festas, compreende-se que a fórmula original da expressão vá se perdendo na memória dos falantes, deixando em seu lugar, simplesmente, “arroz de festa”.

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